Sobre o novo livro "Caim" de José Saramago.
** Pele beleza e clarividência do texto, extraí estes comentários do BLOG VISÃO CRISTÃ, de D. Henrique Soares da Costa, Bispo Auxiliar de Aracaju-SE, sobre o novo livro de Saramago, "Caim", que somente visa agredir a Igreja. Saboreiem a inteligência de D. Henrique.
"Acabei de ler um diálogo entre o velho ateu rabugento José Saramago e o teólogo e literato Pe. José Tolentino de Mendonça. Não gosto de Saramago: nem do seu estilo nem de suas idéias nem de sua rabugice nem de sua petulância. Acho-o desrespeitoso e injusto em relação à Igreja; acho-o hipócrita, pois o mesmo que acusa os católicos, louva Fidel Castro...
Volto ao diálogo. É em torno do último livro do Saramago – que não lerei de modo algum: Caim. O velho escritor acusa a Sagrada Escritura de dizer disparates porque na Epístola aos Hebreus afirma: “Foi pela fé que Abel ofereceu a Deus um sacrifício melhor que o de Caim. Graças a ela foi declarado justo, e Deus apresentou o testemunho dos seus dons. Graças a ela, mesmo depois de morto, ele ainda fala!” (11,4).
Contra a frase inicial deste versículo, Saramago vomita seu veneno: “Em toda a Bíblia, depois do assassinato de Abel, não se volta a falar de Caim. Não se sabe por que, nessa Carta aos Hebreus há uma referência a Caim e que é completamente absurda e que me permiti chamar-lhe disparate. "Pela fé" - só estas duas palavras dariam para uma larga discussão. "Pela fé, Abel ofereceu a Deus um sacrifício melhor do que o de Caim. Por causa da sua fé, Deus considerou-o seu amigo, etc..". Há alguém capaz de me explicar, em termos racionais e humanos, para que a gente entenda, o que isto quer dizer? É absolutamente incrível!”
Esta observação de Saramago deixa claro que, ainda que seja aberto e acessível à razão, o cristianismo é mais amplo que ela e não poderá nunca ser apreendido quando se tem má vontade. O mesmo se diga da Sagrada Escritura. Não é a toa que Santo Agostinho quando leu os Textos Sagrados ainda sem fé viu neles apenas uma escritos grosseiros e até escandalosos e desprezíveis; depois, guiado pela luz da fé, nas Santas Escrituras encontrou a vida, a luz e a doçura do Senhor!
A dureza de coração e estreiteza mental de Saramago o impedem de compreender o que não é nem tão difícil explicar racionalmente, bastando, para isto, levar-se em conta o contexto global das Escrituras! Aliás, dói-me que o teólogo que debateu com o velho Escritor não lhe tenha explicado o sentido profundo do texto, detendo-se em generalidades eruditas... Eu, como não sou erudito, vou logo explicando o sentido:
O Autor da Epístola aos Hebreus está elogiando a fé: aquela atitude fundamental do homem de colocar-se diante de Deus com inteira consciência de que ele é o Criador e o homem, por ele amado, é apenas criatura: limitado, finito e dele dependente. Para o Autor sagrado, aquele que crê deve estar cônscio de que Deus existe, é realmente Deus (com tudo o que isto significa) e o homem pode e deve a ele se confiar em humilde e gozosa dependência) Para Saramago, já o “pela fé” daria azo para longa discussão. Ele não crê. Basta! Daqui a porta já lhe está fechada à uma reta compreensão do texto que supõe a experiência encrivelmente humana e libertadora de abrir-se a Deus e acolhê-lo como Horizonte último da existência.
O versículo da Epístola aos Hebreus afirma que Deus agradou-se do sacrifício de Abel e não do de Caim porque o primeiro tinha fé, isto é, tinha uma atitude de humilde a amoroso reconhecimento do senhorio de Deus. Em outras palavras: Abel levava Deus a sério na sua vida, contava realmente com ele e sabia que dele dependia. Caim, não: era autossuficiente, como se se bastasse a si próprio e ele mesmo fosse seu deus. Daí a frase: “Foi pela fé que Abel ofereceu a Deus um sacrifício melhor que o de Caim. Graças a ela foi declarado justo...” Observe você, meu Leitor, que aqui não há nada de disparate ou de absurdo. É um texto claro, lógico e sereno. Só alguém como Saramago, com a autossuficiência de Caim, tem dificuldade de compreendê-lo. O Autor sagrado está afirmando que somente agrada a Deus aquele que caminha diante dele com humilde confiança, aquele que não julga a própria dependência em relação a Deus como uma humilhação, mas como um estupendo caminho de vida e liberdade, de maturidade e de paz.
Ainda sobre Caim e Abel, é interessante notar que a 1Jo 3,10-11 afirma que Caim era do Maligno: precisamente porque fechado para Deus, terminou por fechar-se também para o outro, já não o reconhecendo como irmão e matando Abel, por despeito e inveja! A lógica aqui é tremenda: quando não se reconhece a Deus, quando alguém se coloca no lugar de Deus, somente se contenta com a sua medida, com o seu critério, com o seu primeiro lugar, tornando-se capaz de anular e destruir tudo quanto esteja no seu caminho. Saramago, que é marxista, deveria meditar muito sobre isto, pois foi o que os comunistas fizeram nos países em que tomaram o poder! Para a Epístola de Judas (cf. 1,11), o caminho de Caim (fechamento para Deus e para o irmão como irmão) é o caminho de todo o que segue o mal... Aliás, a narrativa do Gênesis é profundíssima: Caim, fechado para Deus, não reconhece também (como o ateu Saramago) o direito que Deus tem livremente de ser Deus, de amar gratuitamente, de ter predileção e de escolher em plena liberdade (recordemo-nos que a justiça de Saramago é marxista: leva ao pelotão de fuzilamento). Isto faz de Caim um mal-humorado (como Saramago), de cara amarrada (cara amarrada e falta de humor são o que resta de uma vida sem a poesia de Deus). Deus o repreende, fazendo-o notar que, com seu coração azedo, está cevando uma fera que se tornará incontrolável (cf. Gn 4,5-7). Caim não escuta o Senhor, deixa que a fera do ódio e do azedume o domine, e joga-se contra o seu irmão...
Eis o sentido do texto, tão profundo e belo! Mas, o cego Saramago (que, na sua prepotência jurássica, está longe de ser um Bartimeu) só consegue ver aí disparates... Coitado!" (os grifos em sua maioria, são meus).